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24/03/2015

Uma coisa outra, entre açorda e sopas


Divagação

Gosto de "sopas", e sempre gostei. Na sua forma mais básica, eram então o simples pão migado já na mesa directamente para o prato de sopa, engrossando assim um creme ou caldo de legumes.
Isto pode ser feito de forma mais refinada com uns cubinhos de pão torrado, mas (tem de ser dito que) não é a mesma coisa, como atestarão os que gostam de uma ou outra das hipóteses.
As "sopas", na sua forma mais alentejana, e aqui refiro-me tanto às açordas de peixe(bacalhau, pescada, cação, etc), como às sopas de lebre, de feijão e todas as que se deita um caldo ralo sobre fatias finas de pão duro , semelhantes às primeiras como a noite é semelhante ao dia.

Mas como gosto de todas, não consigo escolher e por vezes confundo-me, sem que daí resulte qualquer desagrado. Se cozo um peixe guardo a água para uma sopinha destas. Se faço um cozido, aproveito o caldo e lá vamos às sopas. E com favas, grão, feijões, espinafres, couves com ou sem chouriços ou ovos, lá vou eu direito ao belo pão alentejano (hoje em dia prefiro alguns algarvios)


Os factos

Vou ao mercado de Alvalade, dizem-me que leve o mero, e eu alegremente levo. Já limpo e partido em postas, só lhe falta umas pedrinhas de sal para ir a cozer, o mero, e eu a imaginar o caldinho, feito de àgua fumegante, fatias de pão, alho picado e azeite cru, com a carne da cabeça, já limpa de espinhas, alguma pimenta preta e uns coentros frescos picados. Um paraíso gustativo.
Mas, deu-me então para complicar e ao pão alentajano, juntei broa de milho, diferente no sabor e na textura, ao caldo juntei espinafres e acabei numa coisa outra, mas um familiar muito próximo de tudo o mais. São estas também sopas de tudo.

12/12/2013

O meu jantar foi canja de bacalhau

Hoje fiz dois tabuleiros de bacalhau espiritual e assei um lombo de porco que me foram encomendados. Com isso a hora de jantar chegou e eu nem tinha pensado no que fazer (nem me apetecia pensar muito).
Olhei para o resto do caldo de cozer o bacalhau e pensei em aproveitá-lo para o meu jantar. O caldo estava saboroso, pois fora temperado com louro, alho e cebola para aí cozer o bacalhau e depois ainda fervi espinhas e  peles para extrair todo o sabor possível. Com esse caldo resolvi fazer uma espécie de canja.

Aqueci 3 copos de caldo e juntei-lhe 1 copo mal cheio de arroz carolino para cozer. Enquanto o arroz cozia tirei a pele a uma mão cheia  de grão(já cozido) que tinha no frigorífico. Acabei a canja com uns cheirosos coentros picados, gotas de limão, pimenta moída e um pouco de azeite para acabar.

A canja fumegante e o copinho de tinto alentejano alegraram-me como só as coisas simples podem fazer.

14/03/2013

Sopas (de tudo)

Quando comecei a Alentejanar a minha cozinha?
 Depois dos tempos de Vila Nova de Milfontes? Depois dos jantares no Afonso em Mora? Depois das repetidas e sempre reconfortantes refeições na Tasca do Montinho? Depois das Sopas de Lebre e outros petiscos da Mãe do Maurício?
Tudo foi marcante mas, por mera curiosidade, reparo que a ordem (temporal ) da enumeração é igual à importância crescente dos referidos, mas as Sopas vieram do lado do Maurício, sem dúvida.

Nesta vontade de pensar no que como, acabo por recordar outras sopas que na verdade são as mesmas e sempre estiveram comigo. "Fazer sopas" é uma expressão antiga para mim, de sempre, aquela coisa de migar pão para o prato da sopa e assim engrossar um caldo(ou um puré) de legumes bem quente, não é mais do que um reflexo desse comer Alentejano. E as sopas de café com leite, agora em desuso mas das quais me lembro bem...tudo isso vem da mesma raiz que acaba por ser a falta de recursos e a necessidade de aproveitar tudo ao máximo. Mas quando o Maurício me apresentou as Sopas de Lebre, pareceram coisa nova

Trata-se do caldo de cozinhar a lebre, ao qual se acrescenta água quente e depois, já sem o bicho, se junta o sangue reservado  e fervilha um pouco para acabar de cozinhar. No final deita-se numa tigela onde estão fatias finas de pão, alho picado, uns fios de azeite e bastantes folhas de hortelã.
Para acompanhar estas sopas, o Maurício (e todos nós, os gulosos que partilham com ele as Sopas) não dispensa uma frescura qualquer - se possível as rodelas de rábano, mas também podem ser rodelas de pimento verde ou rama de cebolas novas.

Serão estas (hoje em dia) umas sopas mais requintadas, mas  nunca esqueço uma água de cozer bacalhau, pescada ou outro peixe, com a qual faço sempre (bem, nem sempre, pois também gosto muito de arroz...) sopas que me aquecem a alma e a gulodice. Viva o Alentejo!


reprodução de azulejo de Bela Silva