08/02/2015

Açorda de bacalhau

Vai ser hoje o almoço, para mim e para a  minha mais nova. Não vou descrever, pois é coisa que nasce feita e como se diz na canção
"coentros e alho
e água a ferver
dá pouco trabalho
e é fácil fazer"

Afinal isto é apenas um beijo para a Neide, que gravou estas imagens quando esteve em Portugal e visitou a Adega Velha em Mourão.
A Neide, o Senhor Engenheiro, a Adega Velha, o Cante e a Grande Cozinha Alentejana.


04/02/2015

Um fim de semana para recordar

Queria ter escrito qualquer coisa sobre a massa dos “crescione” italianos, feitos misturando banha, farinha e água  e com a qual se fazem uns pastéis recheados com qualquer coisa.. Estes, depois assam-se  numa chapa ou frigideira, sem qualquer gordura. Já os fiz com  os recheio típicos das empadas, com queijo e fiambre, com restos de caril de frango, com salsicha fresca  e até com queijo e marmelada. Quanto a recheio vale tudo, desde que não tenha molho que iria empapar a massa.
Depois estive quase a escrever sobre o tandoori verde de galinha, ou seja, em vez de corante vermelho levou coentros frescos moidos e um pouco de leite de coco para adoçar a mistura. Nesse dia aproveitei o calor do forno para assar batatas doces (ao que parece estão na moda) e beterrabas com que me tenho deliciado. 

Afinal acabo a escrever sobre o que não cozinhei, mas me deixou boquiaberto pela qualidade do que foi servido, pela arte de quem organizou e pela bondade de quem presenteou os muitos convivas com tanta coisa e tão boa.

A história começa num convite antigo para presenciar uma matança de porco e (principalmente) os passos seguintes que prenunciam a comezaina justificadora do sacrifício do suíno. Afinal a matança fez-se dias antes e chegámos no sábado apenas para as alegrias do conviver, comer e beber. Tudo de grande qualidade, mas sobretudo com a alegria que é se ser-se recebido como família.

A minha primeira dentada foi fora do figurino, pois comecei com um doce. Ao ver as queijadas que a mãe do Miguel faz e eu já provara numa ocasião anterior, não resisti e ataquei logo uma . Só depois me deixei levar pelos sabores salgados, mas com calma que a tensão anda alta.

Os queijinhos de mistura artesanais feitos por uma “velhota” da terra, eram soberbos, o chouriço assado nem passou da cozinha e foi logo devorado por quem via os outros trabalhar, o vinho branco produzido pela família e acabado de engarrafar,  era excelente e escorreu até se esgotar, o pão feito e cozido ali mesmo no forno de lenha, apareceu em quantidades dignas de uma padaria, e o seu cheiro foi um chamariz infalível para a mesa, com as belas azeitonas alentejanas ainda “verdascas”. Montou-se assim uma soberba e bem tradicional entrada com que fomos preparando o bandulho para o que se pressentia por via dos aromas. Uma caldeirada de borrego.

Sobre esta, não sei o que louvar mais: a qualidade da carne, a excelência das batatas ou a prefeição do cozinhado. Comi até fartar e no fim a travessa estava ainda cheia, por ter sido renovada para além da capacidade dos comensais e eram muitos, mas mesmo muitos. Lembrei-me do meu avô que, por mais gente e mais comida que houvesse em sua casa, fosse dia normal ou de festa, se visse uma travessa vazia logo dizia ter ficado tudo com fome. Pois bem , ali ninguém ficou com fome e depois de bem jantado e indo já eu nos doces (que incluíram um Abade de Priscos feito por mim) vejo um desfile de travessas com leitão assado que me deixou atarantado mas, não sei bem como, resisti.

No final da noite, quando nos despediamos dos donos da casa, fomos convidados para o almoço do dia seguinte, domingo. Um cozido, onde o tal porco seria o elemento principal
 .
E assim, lá estivemos à hora marcada, depois dum pequeno almoço ligeiro(para não atrapalhar)  na pastelaria Alcoa (sim, isto aconteceu perto de Alcobaça) e no regresso ao local do crime, nem vestigios da noite anterior. A promessa do cozido deixou a todos como se nunca tivessem comido e alegremente fomos ocupando os lugares na mesa e atacando as travessas onde tudo o que faz falta num cozido se apresentava delicioso e fumegante. Soubemos depois que à excepção da farinheira, tudo o mais fora produzido ali mesmo pelas mãos hábeis de muitos intervenientes, da horta às panelas.

Podia continuar, esmiuçar as carnes e os legumes, descrever os cheiros, louvar a confeção, que ficaria sempre muito longe de todo o calor que senti naquela casa abençoada (e esta não é palavra que eu use muito). Saí de lá com a barriga bem cheia, mas sobretudo com esperança de voltar para outros dias assim, com toda a alegria de abraçar os amigos e passar horas de animado convivio.

Obrigado Miguel!