04/04/2018

Regressado do jantar no "Cardoso do Estrela de Ouro"



quantos anos levou a fritura
e o arroz de feijão
que primeiro pensei recusar,
mas por dentro alguma coisa conspirava
história sem ouro
ou guerra maior
que a fome
apaziguada




quantos anos levaram todos os galegos
descendo a pé deste arosa até lisboa
pra vender vinho ou carvão
e dar-nos o pão à boca,
num português
onde o X se faz mais do que é
construíram a maior costela do nosso esqueleto
alimentar,
e nada disseram do lacón con grelos




hoje
choramos de saudade por tudo o que fica para trás
saudade antecipada ainda
saudade inevitável


quantos anos levou a fritura
do rissol
do carapau
do filete de pescada
do pastel de bacalhau sem queijo
do amor
nos renovados restos que alimentam a família




Penso tantas vezes:
a minha Mãe fazia bifes a contar com os croquetes
sei que é aí que vou ficar
e adormeço embalado por conversas sobre migas
raia alhada
ou sopa de feijão verde com segurelha
no Verão dos meus Avós

20/03/2018

Fish and Rice

Há um mês, fiz um arroz de pampo, em casa duma amiga que (temporariamente) alojava uma jovem japonesa que estava na nossa terra a aperfeiçoar a língua que por cá se fala.

No final, depois de tudo comido, ela pediu-me a receita pois queria fazer o mesmo para a mãe, uma vez regressada ao Japão. Acho que se tratou dum belo elogio ao prato que mais gosto de cozinhar e aqui fica a receita tal como lhe enviei:

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A recipe is always more than a list of ingredients and techniques. Especially when it is part of one's history like this is to me, but I'll try to describe and you'll try to achieve it, keeping in mind that the stock is the most important part of this recipe. Or is it the rice? Maybe the fish? The olive oil?

To start, it is necessary to make a good broth, with vegetables , fish, spices etc as this will be the main flavoring component. There is also the need to use a good olive oil, which you will have difficulty in finding, but it can be done with proper butter also, even though the end result will be different. No other fat will work. So, use olive oil if possible and if not, use butter.




To prepare the stock:
  • fish (1 whole, at least 1Kg)
  • 1 leek
  • 1 onion
  • 1 garlic clove
  • 1 carrot
  • 3 cardamom
  • 6 (grains)black pepper
  • 1 laurel leaf
  • 3 slices of fresh ginger
  • lemon zest
  • salt
  • water

The fish may be any kind of fresh white and not fatty fish, like sea bass, hake, snapper or pampano as the one in the photo(don't use mackerel or sardines). It is better to buy the whole fish, as the head and all the bones are required for the stock. The easiest way is to buy a fish weighting between one and two kilos (to make rice for 2 persons a 1 Kg fish is more than enough). If the fish is not to big it may be cooked whole, otherwise there is the need to cut it in pieces.





Start adding salt (if possible coarse salt) to the fish. Then pell the veggies, and cut them in pieces (not too small ). Sweat them in a hot pan with olive oil, and take care not to let them turn brown, add the spices (you can use all, some or none, but it will make some difference, one or two stripes of lemon zest (saving the rest of the lemon for later) and a piece of fresh ginger. Add 1 Lt of water, salt and wait for the water to start boiling.












































Let it boil for 10 minutes before adding the fish, and after that, wait for the water to boil again. When that happens, turn off the fire, cover the pan and let it rest for at least 30 minutes.


After 30 minutes, remove the fish from the water (it will be almost completely cooked) and clean it carefully, returning all the bones and skin to the stock, and keeping all the flesh to add later to the rice).
Let the stock (with the vegetables, spices and fish bones) simmer for 30 more minutes, and after that, sieve it, to use the liquid in the rice preparation.












The rice:
  • stock
  • 4 tablespoons of good olive oil
  • 1 clove garlic
  • 1/2 leak
  • 1 medium onion
  • rice (I use Carolino rice Bom Sucesso brand )
  • fresh coriander
  • juice of 1 lemon
  • fish



To make the rice, you will have to find a rice that absorbs a lot of water - the thai or basmati rices are not good for this, but risotto rice (carnaroli) or even paella rice can be used.

The photo shows the rice I use, but I don't think it will be available in Japan



The amount liquid will be 2,5 times the amount of rice, and in the end there should still be liquid, and the grains cooked, soft but not sticking...

To start cooking the rice, get a pan in the fire, add the olive oil, the garlic / leek /onion finely minced , let it start to fry and add the rice (100g for each person). Mix the rice so that it is covered with a layer of olive oil, and after that add the stock (for 2 persons use 200g of rice and 0,5Lt of hot stock).
Cook the rice covered for 10 minutes after the liquid starts to boil, and when the 10 minutes pass, add the fish, the lemon juice, some more salt if required, and two handfuls of fresh coriander leaves. Cover and let it cook for more 2 minutes.
To finalize I add 1/2 tablespoon of olive oil, but that's not mandatory...
Eat immediately as it will lose quality with time. Don't reheat it later, eat everything and enjoy.



10/02/2018

Em 2018

Em 2018, farei 60 anos e nessa altura estarei a terminar o 2º semestre e em vias de começar o estágio de 2 meses num restaurante, trabalhando como qualquer ajudante de cozinha, ou seja, muitas horas e poucas opiniões.
Em 2018 os meus filhos farão 28 e 18 anos respectivamente.
Em 2018 muitas outras coisas acontecerão, boas e más, maçadoras e desafiantes, para além de tudo o que é normal, costumeiro e em que, por isso, não reparamos.
Mas este fim de semana só penso na montanha de testes que se avizinham, começando já amanhã com uma mistura de provas técnicas (Pastelaria, Cozinha Pedagógica) e teóricas: prova escrita de Cost Control.
Assim divido-me entre o coração e a razão, tendo a segunda dificuldades em fazer-se ouvir. Ontem preparei a prova de Pastelaria - vou fazer uma tartelette Bourdaloue - e a de Hot Kitchen - Arroz de hortelã com pastéis de massa tenra - e hoje de manhã saí da cama para afiar facas e de seguida desmanchar um frango:

Peito simples
Peito com osso da asa
Lollipops de frango (asas)
Pernas desossadas

E o cost control? Aguarda!

Acabei de preparar o frango e avancei para um caldo, aproveitando a carcaça, a que juntei cebola, alho, alho francês, cenoura, louro, sementes de coentros, bagos de pimenta, cabeça de porco fumada e pés de salsa.

O caldo e a carne do passaroco, serão ao jantar transformados em frango de tomatada e quanto ao Cost Control? Aguarda! A razão está a perder, mas nos dias seguintes tenho mais.  Tourism, Labour & Regulations, Français, English, Communications, Informatic, Nutrition e Cost Control de novo.

Agora vou mesmo passar às fórmulas para calcular stocks, compras, consumos e outras coisas assim, e depois começar a pensar a sério nas provas que se seguem. Quanto às receitas, virão depois


31/01/2018

Não há tempo para isto

Por vezes penso que este blog está abandonado, mas está apenas em pausa.
Na verdade, estes dias de fim de semestre, têm sido atarefados e tendem a piorar até ao dia 16 de Fevereiro. Depois haverá uma pequena pausa e começa o segundo semestre. Com ele coisas mais sérias virão. Era a isso que  a Catarina aludia, quando se cruzou comigo nas escadas da escola.

Horas antes eu estivera, com outros colegas, a ver os finalista em acção, num almoço muito especial, cujos pratos tinham nomes famosos como  Bocuse,  Bras,  Carême etc. O almoço mais complexo feito na escola, na opinião do Chef. E eu a vê-los trabalhar com arte e afinco, os pratos saindo, cheios de detalhes, bem apresentados e despertando a vontade de provar. Foi a custo que deixei a janela por onde os via e regressei às minhas aulas, terminada a pausa do almoço.

O que a Catarina me disse, quando se cruzou comigo, foi:

 - Fizemos o ultimo serviço de almoço, no próximo já serão vocês!

E referia-se a nós, que em breve passaremos de Culinary Arts 1 para Culinary Arts 2,  e assim iremos de espectadores para obreiros. Aleluia!



Quanto a tempo para o blog, não está para breve, mas a causa é boa.

02/01/2018

Em Janeiro o Luar



(Vimos a Lua bem cheia sobre o mar nas primeiras horas de Janeiro. Pouco mais de uma semana antes tínhamos comido este arroz que agora conto. O resto que não se conta é feito de pequenos gestos, de olhares e sorrisos irrepetíveis )  

 ***

Amanhã recomeçam as aulas depois das férias de Natal, uma coisa de que já mal me lembrava, mas soube bem, até porque é uma confirmação de que sou mesmo um estudante.

Quase que me esquecia da escola, se não fossem as mensagens dos colegas, a recordação quase diária dos trabalhos de casa ainda por  fazer e as tarefas culinárias, remetendo-me para o muito que tenho aprendido nestes curtos meses iniciais.

Deste arranque da minha vida de estudante, ficara apenas um (pequeno) lamento. No dia  dedicado ao arroz, quando o chef referiu as preparações que iríamos realizar, houve uma que me chamou a atenção em particular: o arroz de hortelã tal como fazem no restaurante eborense, Luar de Janeiro - onde nunca fui e nem sequer de nome conhecia antes, mas a pequena descrição feita do prato e o meu amor por tudo o que seja arroz, deixaram-me expectante. No entanto não houve tempo para o fazer nesse dia e eu fiquei com o tema atravessado...

Durante as férias, acordei várias vezes a pensar no assunto e um dia avancei de olhos fechados para o dito. Aquilo que eu sabia era pouco, mas segui as pistas:

  • ·         Refogado de alho
  • ·         Cebola inteira
  • ·         Molho de hortelã

Sabia que havia um caldo knorr, mas como bom aluno do meu professor, fiz eu um caldo simples com cenoura, cebola, alho francês, louro e barriga fumada e com o caldo pronto e um lombinho de porco temperado (alho, azeite, vinho branco e louro) e pronto a grelhar, virei-me para o arroz imaginado.
Com dois dentes de alho picados e uma flha de louro fiz o refogado, a que juntei depois 1 copo bem cheio desse Carolino tão nosso querido. Depois de envolver o arroz no refogado, deitei o caldo necessário (2 copos), a tal cebola inteira, apenas descascada  e coloquei a tampa. A meio dos 10 minutos da praxe, abri mexi e juntei  uma mão cheia de hortelã (ramos com as folhas) e voltei a tapar.
Entretanto  reservara umas folhas pequenas  da hortelã, para antes de servir, poder  tirar o ramo e juntar  as folhas novas.
Gostei muito do "meu" arroz de hortelã, que veio nesse dia fazer companhia ao lombinho grelhado e completar uma aula que fora bem recheada de delicias com arroz . Agora tenho de ir a Évora provar o outro. O verdadeiro.

12/12/2017

Arroz de forno com vista para o mar



Prosseguem as aulas e as aventuras culinárias, principalmente no início da semana, quando acontecem as aulas práticas. Sucedem-se as receitas , começa a nascer uma base de trabalho para coisas mais sérias, embora cada momento tenha toda a seriedade possível e promessas de "no return", ou seja, vamos avançando na direcção certa e um dia ainda saberemos cozinhar. Agora, muitas vezes parece que andamos a boiar entre as linhas das receitas e as instruções directas dos Chefs, mas as coisas vão avançando e já demos de comer a muita gente.



Depois do  dia do peixe, houve o dia do arroz que incluiu arroz de cabidela, arroz de marisco, arroz de forno (nesta parte tu interrompeste a minha descrição, muito ao de leve, com um som de interesse e aprovação que registei)  nasi uduk (receita indonésia) e um risoto milanês...
Muito arroz e todo bem  confeccionado e comestível. Muita coisa para aprender nestes processos de cozinhar em quantidades grandes, panelas grandes, resultados consistentes.  E cada vez sentimos melhor o chão e ligamos os pontos desta caminhada cujo percurso ainda está pouco visível para além dos passos seguintes. 

Vão-se acendendo luzes.

No fim de semana, quando se colocou a hipótese de haver companhia à mesa para o nosso almoço de sábado, comecei a  imaginar o tempo a esticar, para te fazer um arroz de forno, parecido com o que havíamos produzido na escola.

Na minha cabeça torcia-se o tempo, até ter a carne de vaca cozida, e isto antes ainda de a  comprar. Por fim lá cheguei à fala com o talhante:  Maçã do peito (vaca) e entrecosto de porco foram as carnes que compradas (na escola também houve frango para melhorar o sabor do caldo), além de um chouriço e uma morcela.
Fiz um caldo com alho francês, cebola, alho, cenoura, aipo, louro, sal e pimenta e aí cozi as carnes. Uma vez cozidas, coei o caldo, para depois fazer o arroz, e parti as carnes, em cubos, as frescas e às rodelas, as enchouriçadas. 
Com o relógio a avançar e eu pensando que a carne de vaca devia ter ficado mais 30 minutos a cozer, passei para o refogado do arroz.
Num tacho com azeite, refoguei alho, cebola e aipo, com folha de louro e pimenta, até a cebola começar a alourar. Juntei o arroz para fritar um pouco antes de juntar umas colheres de caldo e uns pés de hortelã.  Fervilhou durante 5 minutos e foi para o forno num prato com caldo suficiente para cozer e ficar seco. Sobre o arroz foram as carnes cortadas e assim que o arroz começou a alourar (10 minutos a 180º ?) apaguei e pouco de pois servi.


Acho que tu gostaste. Eu gostei do sabor, mas achei que a carne de vaca precisava de ter cozido mais. Os restantes (2) convivas, comeram animadamente e sem protestar, por isso foi um sucesso, regado com um tinto do Torrão, que se portou bem.  

A comer de costas para o mar, este arroz tão enraizado no interior territorial, íamos escutando o mar a levantar a sua crista. Era a Ana a chegar, que agora até o vendaval tem nome por cá.


As fotos foram feitas durante a aula na EHTL, e são da autoria de Vivian Liu

 

29/11/2017

Tell me when my light turns green

Dexys Midnight Runners >>> Tell me when my light turns green

Às vezes é difícil fazer as coisas que mais quero.

Hoje teria sido preparar (tirar a pele e filetar) um linguado, que depois seria transformado em cilindro (por meio duma ballotine) cozinhado sous-vide (66º) e finalmente, coberto por uma viennoise de parmesão, para assim  seguir até ao grill. Aí, a protectora vieinnoise (um fino rectângulo congelado de parmesão, manteiga, pão ralado e alho) derreteu-se sobre o peixe, tomando a forma de capa cilíndrica, enriquecendo o resultado com os sabores referidos, mais o efeito do calor intenso.

Não pude fazer pois havia mais quem quisesse, e porque tenho fama de já saber fazer coisas, algumas que nunca tinha visto antes, como este "Sole en viennoise de parmesan", fico a ver, para que outros se iniciem. É justo. Muitos na verdade, precisam de ter estas oportunidades, que eu da idade deles nem sonhava. Assim vão crescendo em direcções mal imaginadas ainda, mas certamente diferentes dos planos iniciais. Diferentes e mais ricas.

Também nestes casos vou aprendendo coisas úteis como a paciência e o silêncio. O ajudar e o esperar. Partilhar. Participar. E no fim limpar.

 foto: vivian liu


Hoje foi mais um belo dia, com muito trabalho e muitos peixes para preparar  - Caril tailandês com pescada, robalo em crosta de sal (com farinha), filetes de Peixe Galo, o tal linguado e ainda uns berberechos à Bulhão Pato.

Depois, subimos orgulhosamente as escadas que levam à cantina, ostentando o nosso almoço - o caril e o robalo - com decisão e fome. Tudo comido até ao rapar dos tachos e tudo muito bom.

Todos os dias são novos e acabam com sorrisos.