Uma conspiração? Uma conjugação? Melhor, uma constelação!
Vários elementos soltos, que vistos de um certo ângulo, ganham uma harmonia própria e chegam a parecer inseparáveis.
Escrevo uma vez mais sobre o ceviche que me atrai, também aqui nas Cabanas.
Estou de férias com a minha filha, que gosta das coisas que eu faço e está sempre pronta para um ceviche.
Vou à praça e as bicas parecem-me sempre apetecíveis, na sua frescura cor de rosa e mesmo quando, como hoje, ia a pensar em lulas grelhadas saí de lá com uma bela bica, que entretanto já marchou.
Ontem foi um arroz de peixe (com bica, claro) que ficou delicioso. Arroz carolino, o caldo das espinhas, mais o tomate, a cebola e um pouco de pimento vermelho assado, e pedacitos de peixe.
Hoje, ao sair da praia ainda disse que podia ser ceviche ou uma açordinha de peixe, mas a moça ficou-se pelo ceviche.
Então e a constelação? É simples. As bicas, abacates maduros e saborosos como não encontro noutro sítio, ( oh pai, eu não sabia que abacate era bom, os que tinha comido não sabiam a nada!) ameixas, tomate, cebola, gengibre, coentros e muita lima. Eis a constelação.
Ao peixe, tiro os filetes, tiro a pele e elimino as espinhas, antes de o cortar em cubos, temperar com sal e afogar no sumo 2 limas durante 15 ou 20 minutos. Entretanto trato de resto:
A cebola, corto-a fina e ponho em água gelada para ficar estaladiça e menos forte. As ameixas brancas e vermelhas(metade de cada), corto em cubos pequenos, bem como o tomate e o abacate. Pico o gengibre (2 rodelas finas) em cubos muito pequenos e pico também os coentros. Misturo os vegetais todos e tempero com um pouco de sal e pimenta. O piri-piri deito depois no meu prato,pois a menina não aprecia.
Antes de ir para a mesa, preparo umas torradas muito finas e depois junto os peixe com os companheiros de constelação. Inseparáveis. Deliciosos. Um belo petisco e agora vamos para a praia que o Verão não dura sempre, e menos ainda duram as férias.
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10/09/2015
19/08/2015
Memórias - Os doces
Uns dias penso que as palavras são curtas. Noutros, sei que é
apenas a minha arte que é curta para reflectir o que sinto, mas na verdade,
qualquer coisita é melhor que ficar calado e deixar cair o que pode ser contado.
O verão na cidade não tem grande cheiro. Tem espaço, tem
calor, mas o cheiro é o mesmo.
O verão da minha memória tem sempre cheiro. Cheira a
maresia, cheira a camarinhas, cheira a mexilhões arrancados da rocha, e a creme
nivea, mas também cheira a pêssegos, a calor, às cigarras (há memórias onde confundo a sesta, o calor e
o ruído das cigarras como se partilhassem um cheiro vago que dura o tempo de
adormecer) e a doces fervilhando nas
panelas da cozinha em Torres Novas.
Acho que a minha Avó gostava de fazer doces. E fazia
muitos. Na despensa havia sempre uma colecção de frascos cheios, que parecia não ter fim. Para ela os doces eram o complemento natural da fartura de fruta que
o Verão trazia. Principalmente ameixas, pêssegos, tomate e por vezes o
delicioso doce de melão. Qual o melhor? Talvez o de tomate, pois apesar de
estar sempre presente e em grandes quantidades, continuo a gostar dele como se
fosse uma surpresa.
Recordo bem a urgência do doce de ameixa, que era feito para
evitar que a abundância das ameixas, de repente todas maduras, desse em desperdício, coisa
inaceitável para os meus Avós.
Então havia baldes cheios de ameixas na cozinha e a minha Avó ia preparando os doces que alegrariam o frio do Inverno.
Então havia baldes cheios de ameixas na cozinha e a minha Avó ia preparando os doces que alegrariam o frio do Inverno.
Hoje, continuo a fazer doces – este ano já fiz de cereja, de
alperce, de pêssego e de rainhas-cláudias – como se tentasse apanhar esses
momentos perdidos e acima de tudo porque acredito que existe uma ideia a
preservar.
Fazer um doce é muito mais que a soma de gestos, que depois acaba numa fatia de
pão distraída ao pequeno-almoço, como deve ser. Distraído como eu as comia
então, na grande mesa da cozinha, quando
a minha Avó ia abrir um frasco de doce de ginja (na verdade este é o melhor de
todos, mas é tão raro que fica no rol dos esquecidos), para eu espalhar na
carcaça já com manteiga.
Imagino que a minha Avó esperasse um comentário e
imagino que estes fossem escassos, pois sei que comia com os olhos na rua, onde
crescia tudo, até as pedras, para eu descobrir diariamente.
Fazer doces em vez de os ir comprar num supermercado
qualquer, é reclamar uma tradição antiga e assim fazer parte dela. É voltar à
infância e ser à vez a criança e a Avó (o meu Avô fazia muitas coisas mas não doces).
E é tão simples.
O último que fiz foi de rainhas-cláudias e levou:
- 1,500 Kg de ameixas sem caroço e cortadas em pedaços
- 700g de açúcar
- 1 casca de limão
- 1 pau de canela
- 4 caroços
Abri os caroços para retirar a amêndoa que quebrei e deixei
de molho em água quente
Deitei o açúcar sobre as ameixas cortadas e juntei a casca
de limão e a canela. Deixei assim 1 hora
Levei ao lume, juntei a água das amêndoas que já estava meio
gelatinosa e deixei fervilhar até chegar aos 104º.
A minha avó não tinha um termómetro
destes, e por isso olhava para os pingos na colher de pau até achar que estava
bom, mas o método do prato com um pouco de doce no frigorífico, também serve.
Podem-se esterilizar frascos, mas quando o doce é para comer
rápido, uma tigela e papel vegetal são quanto basta.
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